Ontem fui descriminado.
Ia muito calmamente a sair do escritório para ir levantar dinheiro ao multibanco e depois seguir para ir beber as imperiais do costume com a malta do escritório quando, ao virar da esquina oiço uma voz estridente aos gritos que de inicio nem me apercebi se dirigia a mim:
Os inimigos da cruz são muitos, mas Jesus Cristo irá espezinha-los. Os satânicos são imensos mas serão castigados por Deus.
Portanto, no espaço de 2 segundos e sem eu sequer lhe dirigir uma palavra a senhora, agarrada à sua bíblia e provavelmente ainda empolgada com a missa ali na igreja do lado, determinou que eu era um inimigo da cruz e satânico.
Primeiro pergunto a mim próprio o que terá despoletado essa certeza tão grande das mihas convicções que achou necessário partilhar com o resto do Chiado. Terá sido o meu modo de andar? O meu modo de vestir? O meu cabelo? Confesso que me visto de preto, tenho o cabelo comprido, uso um pentagrama ao pescoço, botas de biqueira de aço e um casaco comprido e com fivelas. Será isso que faz de mim um inimigo da cruz?
A seguir pergunto o que fazer nesta situação (e uma das opções foi o que eu fiz):
1 - Viro-me para a senhora e digo "irei atormentar as tuas noites até te fazer definhar e inchar a carne, até rebentarem pústulas no teu rosto, renegares o teu deus e aceitares Satanás como o único senhor"?
2 - Pergunto-lhe "desculpe, não foi Jesus que disse não julgues se não quiseres ser julgado? Não é a palavra do Senhor que prega a tolerância? A única coisa que posso dizer é «perdoa-lhe pai, pois ela não sabe o que faz»"?
3 - Desato-me a rir feito doido na rua e viro-lhe as costas?
Isto realmente acontece-me com cada uma...
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